Modernidade Retrô

listras.png

Conceituais, vintage... as denominações para o design de objetos, produtos e serviços no estilo rendem desde ações de empresas e marcas até lojas especializadas para atender um público cativo e jovem

Chegar em casa cansada de um evento e sentar em uma de suas poltronas bergerè, da década de 50, ajuda a consultora Josy Silva, a Zizi, a relaxar. Ela conta que, desde pequena, foi acostumada ao estilo retrô, ou vintage, pela mãe que sempre gostou da tendência. “O fusion – mistura de estilos contemporâneos e antiguidades – sempre fez parte da brincadeira dela e me fez crescer com o gosto apurado para o antigo”, conta. Para ela é inconsciente tratar o consumo desses produtos e acessórios como hobbie, uma vez que está sempre de olho nos produtos, brinquedos, roupas e acessórios que remetam a décadas passadas.

As poltronas, por exemplo, sempre ganham estofados novos, mas nunca perdem o conceito vintage. “Agora estão azul, que é a moda aqui em casa”, brinca.

Frequentadora da região do Baixo Augusta, no centro da cidade de São Paulo (SP), Zizi facilmente poderia sentir-se bem em cortar o cabelo no Retrô Hair Concept. O salão, idealizado pelo gerente Rodrigo Lima e pelo proprietário Rogério Santos, aproveita o conceito “modernoso” da Rua Augusta, sentido centro, para explorar o clima vivido na região.

Rogério era cliente de Rodrigo há mais de 15 anos, mas lá do lado da região Jardins da Rua Augusta, local onde os quatro cabeleireiros do Retro Hair trabalhavam antes. Mas não havia aquela aura dos anos 50 do Baixo Augusta. Era um salão como outro qualquer.

A decoração do Retrô Hair Concept foi estudada para que o cliente pudesse sentir essa aura no ar. E são os móveis, como a escrivaninha que virou mesa da recepção, o sofá que fica no bar estilizado que o salão oferece e o ambiente de camarim em que cada cliente é atendido, que fazem com que ele lembre, por exemplo, de um móvel que tinha em sua infância ou de algo aconchegante na casa de sua avó. Até a geladeira e a estufa de esterilização são antigas.

“A moda é cíclica e o conceito retrô está com tudo. Até grandes estilistas, como Christian Dior e Yves Saint Laurent, em suas coleções recentes usaram modelos antigos”, conta Rodrigo. Aliás, é neste figurino que todos os profissionais do salão se apresentam. “É a volta das pin-ups modernas”, explica.

O horário também é diferenciado. O Retrô Hair atende até às 23 horas com todos os seus serviços e sem preços abusivos. Um corte, que pode ser acompanhado de cafés especiais ou até de uma cervejinha, sai em média R$ 40. Em cinco meses de funcionamento, o salão já trabalha com um retorno considerável para o pouco tempo de existência; fica lotado todos os dias.

O relacionamento com os clientes não é nada vintage. O salão mantém um blog de cultura retrô e faz a divulgação de produtos, bares, decoração, estilo e tudo que seja da cultura, quase sempre fugindo do tema “cabelo”. Além disso, o perfil no twitter @retrohair avisa aos clientes sobre as atualizações no blog e novidades no espaço ( http://www.retrohair.com.br) e todos os “hairstylists” têm suas páginas pessoais dentro do site.

Web vintage

O pessoal do Retrô Hair está certíssimo em mesclar a internet com o conceito retrô. “O melhor lugar para comprar produtos antigos é a internet”, conta Zizi. Ela que, além de móveis, coleciona brinquedos, roupas e discos de vinil, só lamenta que a maioria dos portais esteja fora do País.

Pessoalmente ela vai a brechós e lojas especializadas na Galeria Ouro Fino, na Rua Augusta. No local, marcas como Laundry e Santa do Cabaré fazem de suas vitrines (além da decoração interna das lojas) o paraíso dos moderninhos consumidores do estilo antigo. São listras, bolinhas, cortes arrojados e tecidos usados como na época das pin-ups (moças que serviam aos soldados norte-americanos durante a Segunda Guerra Mundial).

Nessa onda da web, há o blog “Vá de Vintage” (http://vadevintage.wordpress.com) do casal de namorados Tiago Torres, 24 anos e Thábata Guerra, 21 anos. Quando conheceu Thabata, o publicitário, ainda estudante, que restaura geladeiras antigas há quatro anos, juntou a fome com a vontade de comer: Thabata, atualmente estudante de relações públicas, também era louca pelo estilo.

“Por compatibilidade de gostos os dois começaram a ir atrás de móveis, eletrodomésticos, roupas e objetos antigos”, diz Thabata. Tiago, que já tinha a oficina, iniciou restaurações em batedeiras, liquidificadores e fogões. As geladeiras sempre foram a preferência e, pelo boca a boca, ganharam fama entre os amigos e familiares do casal.

O “Vá de Vintage” foi criado há oito meses e serve também como um espaço para troca de informações entre os amantes e colecionadores da cultura retrô. “A criação do blog foi uma sugestão da Thabata. Realmente foi uma maneira bem mais eficaz de compartilhar o conteúdo do que gostamos e divulgar nosso trabalho”, acrescenta Tiago.

O público do site é bem variado. Vai desde pessoas com idade entre 40 e 60 anos que querem produtos saudosistas, até o jovem moderno, entre 25 e 40 anos. “Eles buscam algo a mais, algo que tenha design, história, e significados que não podem ser comprados na loja do shopping. Temos informações que nosso blog atinge da classe A a C”, conta Tiago. Para Thabata, ser retrô pode envolver todo tipo de pessoa. “São amantes do vintage, pessoas que gostam de antiguidades e que entendem a beleza do antigo, sem querer transformar o produto em algo totalmente novo”.

Com o blog, a procura pelos serviços do casal aumentou muito. “Já entregamos produtos em Brasília, em Manaus, no Rio de Janeiro, algumas cidades do Sul do Brasil e em São Paulo”, afirmam.

A apreciação de objetos saudositas não começou com o blog. Tiago, por exemplo, curte o estilo desde seus 15 anos e Thabata não fica atrás, pois desde criança gosta das coisas vintages.

Essa união de gostos e o sucesso do “Vá de Vintage” rendeu ao casal a ideia da fabricação de geladeiras. “A reforma que fazemos é totalmente manual e artesanal. O motor é substituído por um mais moderno, que não libere CFC, além de garantir a manutenção das peças e da parte elétrica”, explica Thabata. A customização, como cor do produto, fica à escolha do cliente.

Para o final deste ano, os dois irão lançar uma marca própria para comercialização. “Já está tudo encaminhado”, comemora Tiago. A marca é Adélia Works, e nasceu da ideia do pequeno empresário, que sabe que trabalhar com a restauração é arriscado, pois o número de geladeiras antigas é cada vez menor no mercado.

A novidade também irá para a web. O blog continuará como portal. “Vamos oferecer um monte de cores vintage, com modelos de maquinário moderno”, diz Thabata.

Produto quentinho, mora?

Nada mais atual do que ser retrô. A frase pode não fazer muito sentido. Mas quando se trata do comportamento de consumidores e do que indústrias em segmentos variados estão fazendo, ela não destoa. “Essa característica do vintage é também fundamentada pelo hábito de colecionar”, explica Heloisa Omine, professora da pós-graduação em comunicação com mercado da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). “Vem da necessidade de ser autêntico, diferente, e virou moda por remeter a repaginação”, acrescenta.

Heloisa também atribui à internet a boa aceitação e a disseminação desse conceito. “Tudo ficou acessível e a rede passou a ser uma ferramenta estratégica para pequenos produtores de móveis e roupas. Isso fez com que a moda e o design retrô deixassem de ser apenas um fator de comportamento atual para virar algo de status. “É chique ser retrô”, diz.

Entretanto, a tal repaginação pode esbarrar no gosto pessoal dos consumidores. A Nestlé, por exemplo, havia lançado o Nescau 2.0, reformulando a lata do achocolatado segundo conceitos modernos e jovens. Porém, por solicitação de alguns consumidores, a empresa voltou a fabricar e a vender a lata “tradicional”.

Outro exemplo? O casal do “Vá de Vintage” conta: “quando a Royal mudou a embalagem do fermento em pó, não gostamos. Guardamos duas latinhas antigas de recordação”, conta Tiago. “Hoje eles mudam o que está ruim para algo pior ainda. Na minha opinião, a Coca-Cola de vidro ainda é a melhor de todas”, explica o microempresário e publicitário. “Gostamos de receitas culinárias das vovós e adoramos os produtos que conservam a embalagem antiga”, complementa Thabata.

Zizi é outra que reclama um pouco das novidades nas embalagens dos produtos. “No início sempre acho estranho, mas não tenho como não me acostumar, não é?”, questiona a consultora de eventos.

Heloisa lembra do sabonete Granado. “A marca nunca mudou o seu produto, por querer sempre manter o conceito de artesanal, do produto de uma botica”, comenta. “Por outro lado, a pomada Minancora mudou e reconquistou seus fãs por oferecer uma embalagem mais prática”, complementa.

Para Rique Nitzsche, diretor de criação e gestor de projetos da AnimusO2, agência especializada em inovação em compras, o retrô é influenciado por dois perfis de consumidores. O primeiro é o de alguém que adora novidades e busca conceitualmente as tendências de moda. E o segundo simplesmente gosta de um ambiente antigo.

“O movimento retrô tem uma marca própria. Ele precisa ser cuidado, ser estudado e atingir seu público. Atualmente, por exemplo, o que está em voga é o cinema 3D. Logo, ninguém vai se arriscar e lançar um filme em preto e branco, a não ser que ele seja conceitual e revolucione algo”, explica Nitzsche.

O executivo ainda ressalta que a autenticidade é fundamental. “O produto e a marca precisam de diferenciações. Se elas são supermodernas ou retrô não importa”, diz.

“É por isso que na área de bens de consumo e produtos, as empresas estudam fatores que envolvem faixa etária, interesses em temas, atividades em classificações sociais e, principalmente, os anseios dos consumidores”, argumenta Luciana Pellegrino, diretora-executiva da Abre (Associação Brasileira de Embalagens).

Ela acrescenta que em cada categoria de produto existe a expectativa de seu público consumidor. “Até porque o consumidor que tem o estilo retrô para móveis, roupas e costumes, não necessariamente gosta das embalagens de produtos antigos. Isso é muito pessoal”, afirma.

A Abre fez uma pesquisa que apontou que o consumidor avalia a embalagem por sua proposta, custo-benefício e pelo valor que ela agrega ao produto, como facilidade na abertura e no fechamento. Entretanto há também uma relação emocional. “Pode ser uma embalagem de cosmético que traga a sensação de beleza, mas tem de trazer também conceitos socioambientais, que cuidem da valorização do tempo escasso e que seja ligado a uma questão de saúde e bem-estar”, finaliza.